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O mundo compra o escritório noutro lado. À Itália pede o gabinete de quem decide

O mundo compra o escritório noutro lado. À Itália pede o gabinete de quem decide

A 13 de janeiro de 1935, Fernando Pessoa escreveu a Adolfo Casais Monteiro para lhe contar como tinham nascido os heterónimos, e a carta fixa o momento com uma data exata: 8 de março de 1914. Depois de dias a tentar inventar um poeta bucólico, tinha desistido. Nesse dia, escreve, «acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso». Saíram trinta e tantos poemas a fio. «Foi o dia triunfal da minha vida», acrescenta. A Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, escolheu essa frase da cómoda para a página da sua exposição.

A biografia que a mesma Casa publica acrescenta um pormenor que me faz voltar a esta cena: Pessoa viveu umas vezes com parentes, outras em quartos alugados, e teve em Lisboa mais de dezasseis moradas. O dia a que ele próprio chamou triunfal passou-se de pé, diante de uma cómoda alta. A cómoda ficou como retrato dele.

Desta relação entre a pessoa e a peça nasce a tese que quero defender: o mundo compra o escritório noutros países e à Itália pede uma divisão apenas, o gabinete de quem decide, onde o móvel tem de dizer quem lá trabalha. Portugal, que vende escritório lá fora, ajuda a verificá-lo com números. Antes deles, porém, convém olhar para uma divisão que se pensou como retrato de quem a ocupa.

A divisão que se escolhe

No século XV, em muitas casas e palácios, reservou-se uma divisão para o estudo e a reflexão, e deu-se-lhe um nome italiano: studiolo. Ter uma, explica o ensaio dedicado ao studiolo nos recursos sobre o Renascimento preparados em colaboração com a National Gallery of Art de Washington, era apresentar-se como alguém que reclamava para si a cultura que distinguia a época. Federico da Montefeltro mandou fazer um para o palácio de Gubbio por volta de 1478-1482, com desenho de Francesco di Giorgio Martini e execução na oficina de Giuliano da Maiano, em nogueira, faia, pau-rosa, carvalho e madeiras de fruteira; desde 1939 está no Metropolitan Museum de Nova Iorque. Um outro ficou em Urbino, no Palácio Ducal, na região italiana onde trabalhamos.

Pessoa e Federico ficaram ambos retratados pelo sítio onde trabalharam. Um mandou desenhar o seu retrato; o outro recebeu-o do acaso de uma cómoda.

Um país que vende escritório ao mundo

Os dados da UN Comtrade separam o mobiliário de escritório de madeira do de metal; as cadeiras e os outros materiais ficam noutros capítulos, e por isso os números que se seguem não contam o escritório inteiro. Somando os dois capítulos, Portugal exportou em 2023 cerca de 88,8 milhões de dólares e importou 38,1, ou seja, vendeu fora mais do dobro do que comprou, sobretudo para França e Espanha. Nas compras, a Espanha fica com 62% do total. A Itália fica com 8%: é a segunda fornecedora no metal, com 10,2%, e a quinta na madeira, com 5%, atrás de Espanha, França, Finlândia e Alemanha. As somas e as percentagens são minhas, calculadas sobre os valores da Comtrade de 2023.

No mundo, contando apenas países, a Itália foi nesse ano a quinta exportadora de mobiliário de escritório de madeira e a quarta do de metal.

Quem equipa um piso em Lisboa ou no Porto tem fornecedores à porta, e a alfândega mostra que os usa. O que Portugal importa nesta matéria chega sobretudo de Espanha. O que nos pedem de fora de Itália pede-se por outra razão.

As cartas que chegam de fora

Pessoa redigia cartas comerciais em inglês e em francês para firmas com negócios lá fora. Hoje as cartas de fora chegam-nos a nós, pelos formulários dos nossos sites. Em nove anos, desde 2017, chegaram por essa via 6694 pedidos de fora de Itália. Entre os 3028 que se referiam a um produto concreto do catálogo, 42,6% pediam uma secretária de direção e 74,2% uma secretária de qualquer tipo. O lamercanti.pt não tem uma linha própria na análise por site que fizemos em setembro deste ano; por isso não lhe atribuo percentagens e falo apenas do conjunto das mensagens estrangeiras.

A ficha de onde mais nos escreveram é a da Jera da Las Mobili, com 789 pedidos, 11,8% de toda a procura estrangeira. Convém ler bem esse número. O formulário guarda a página em que foi preenchido, como o carimbo guarda a estação de correio num envelope. O que a pessoa escreveu antes no motor de busca fica do lado dela, fora do registo.

Mobiliário de escritório de madeira e de metal, Portugal, 2023
Exportado: 88,8 milhões de dólares. Importado: 38,1 (UN Comtrade, somas minhas).
De quem Portugal comprou esse mobiliário
Espanha, 62%. Itália, 8%: segunda no metal, quinta na madeira (UN Comtrade 2023, percentagens minhas).
Pedidos estrangeiros sobre um produto do nosso catálogo, 2017-2026
3028: 42,6% por uma secretária de direção, 74,2% por uma secretária.

Postos lado a lado, estes números contam duas coisas ao mesmo tempo. Um país que sabe vender escritório compra à Itália 8 dólares em cada 100 do que importa nesta matéria. E, do lado das mensagens estrangeiras que se referem a um produto concreto, mais de quatro em cada dez querem precisamente o móvel que fica na divisão de quem decide.

Escolher o retrato

Mais de cinco séculos depois do studiolo, a psicologia olhou para a mesma ideia com instrumentos seus. Em 2002, Samuel Gosling e três colegas publicaram no Journal of Personality and Social Psychology um estudo intitulado A room with a cue. Pediram a observadores que não conheciam os ocupantes que examinassem os seus escritórios e quartos e descrevessem a sua personalidade. As impressões, recolhidas em separado, saíram semelhantes entre si, mostraram alguma exatidão e apoiavam-se em indícios fiáveis que a própria divisão oferecia.

Pense no auditor externo que entra no seu gabinete pela primeira vez, pousa uma pasta em cima da mesa e espera enquanto o senhor folheia o relatório que ele trouxe. Não o conhece. Segundo o estudo de Gosling, a sala dá-lhe uma ideia do feitio de quem vai assinar, e daria uma ideia parecida a quem entrasse a seguir. É aqui que está o benefício para quem trabalha nela todos os dias: um gabinete bem pensado apresenta-o da mesma maneira a cada visita, também nos dias em que chega atrasado de outra reunião. Um móvel de trabalho torna-se retrato por causa de quem trabalha nele; a quem decide cabe o privilégio de escolher qual.

A La Mercanti é distribuidora: escolhemos as secretárias junto dos fabricantes que conhecemos e acompanhamo-las até ao gabinete de quem as vai usar. A quem compara secretárias de direção em Lisboa ou no Porto, proponho um exercício antes de medidas e acabamentos. Imagine uma fotografia desse gabinete daqui a vinte anos, sem ninguém lá dentro, e pergunte-se se ainda o reconheceria como seu. Os postos de trabalho do piso, esses, Portugal sabe muito bem onde os encontrar.

Pessoa escreveu que nunca poderia ter outro dia assim. Nenhum gabinete promete dias triunfais. Quem decide tem, no entanto, uma escolha que aquele dia não lhe deu: a peça diante da qual vai trabalhar.

Respostas rápidas

Portugal compra ou vende mais mobiliário de escritório?
Vende mais. Segundo a UN Comtrade, em 2023 Portugal exportou cerca de 88,8 milhões de dólares em mobiliário de escritório de madeira e de metal e importou 38,1 milhões (somas nossas sobre esses dois capítulos).

Qual é o peso da Itália nas importações portuguesas de mobiliário de escritório?
Em 2023, cerca de 8% do mobiliário de escritório de madeira e de metal importado por Portugal veio de Itália: segunda fornecedora no metal, com 10,2%, e quinta na madeira, com 5%. A Espanha foi a primeira, com 62% (percentagens calculadas por nós sobre dados UN Comtrade).

O que pedem à La Mercanti as mensagens que chegam do estrangeiro?
Desde 2017, entre os 3028 pedidos estrangeiros feitos nos formulários dos nossos sites sobre um produto concreto do catálogo, 42,6% eram para uma secretária de direção e 74,2% para uma secretária. O lamercanti.pt não tem uma linha própria nessa análise.

Em que móvel escreveu Fernando Pessoa no seu dia triunfal?
Numa cómoda alta, de pé. Pessoa conta-o na carta a Adolfo Casais Monteiro de 13 de janeiro de 1935, referindo-se ao dia 8 de março de 1914; a Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, cita essa frase na página da sua exposição.

É possível perceber como é uma pessoa só de olhar para o seu gabinete?
Em parte, sim. No estudo de Gosling e colegas de 2002, observadores que não conheciam os ocupantes formaram, a partir dos escritórios, impressões semelhantes entre si e com alguma exatidão sobre a personalidade de quem lá trabalhava.

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