Trinta e dois homens e trinta e duas mulheres, com a mesma roupa leve e a mesma atividade sentada. No estudo de Fanger e Langkilde, de 1975, eles preferiram em média 25,0 °C e elas 25,1 °C: uma décima de grau. O número está numa tabela que Bjarne Olesen, professor na Technical University of Denmark, reuniu em 2015 no REHVA Journal, ao lado de outro maior. Nos estudos de Nevins, de 1966, e de Fanger, lidos em conjunto, 488 homens ficaram nos 25,4 °C e 488 mulheres nos 25,8 °C.
Olesen escrevia a propósito de um artigo publicado nesse mesmo ano na Nature Climate Change por dois investigadores de Maastricht, Boris Kingma e Wouter van Marken Lichtenbelt. Segundo eles, as regras sobre o clima interior dos edifícios assentam num modelo de conforto térmico criado nos anos sessenta, e os valores de referência de uma das suas variáveis principais, o metabolismo, baseiam-se num homem médio e podem sobrestimar o das mulheres até 35%. Daí tiravam uma consequência energética: os edifícios podem ser, por construção, pouco eficientes a dar conforto às mulheres. As medições que apresentavam eram de dezasseis mulheres em trabalho sedentário, e Olesen fez notar que faltavam dezasseis homens na mesma atividade para se poder comparar.
Para organizar um escritório não é preciso dar razão a um dos lados. A minha leitura, apoiada nos estudos que se seguem, é esta: homens e mulheres pedem ao termóstato quase o mesmo número, e é o afastamento desse número que custa mais a umas do que a outros. Uma parte desse afastamento joga-se longe da central térmica, nos metros que separam cada posto de uma vidraça ou de uma saída de ar.
Quando a sala se afasta do ideal, o desconforto não se reparte por igual
Sami Karjalainen, do centro de investigação técnica finlandês VTT, reuniu a literatura sobre conforto térmico e género numa revisão publicada na Indoor Air em 2012. Na maior parte dos estudos que reuniu, a temperatura neutra, aquela em que não se sente calor nem frio, não mostra diferenças significativas entre os sexos. Mesmo assim, claramente mais de metade das investigações, em laboratório e no terreno, encontra as mulheres mais insatisfeitas do que os homens no mesmo ambiente, e a meta-análise calcula um rácio de 1,74 entre a probabilidade de uma mulher e a de um homem se declararem descontentes com o clima. As mulheres, escreve, são mais sensíveis do que os homens a um desvio da temperatura ótima, sobretudo quando o ar arrefece, e têm em média mais necessidade de controlar a temperatura por si próprias e de se adaptarem.
Olesen acrescenta uma explicação para as diferenças que se veem no verão nos escritórios com ar condicionado: na maior parte dos casos, diz, é a roupa. As mulheres adaptam o vestuário ao verão, os homens continuam de fato e gravata.
A média, portanto, está quase resolvida. Fica por resolver o desvio, e esse não é igual em todos os lugares de uma sala.
Em 1986, o regulamento português já olhava para a vizinhança de cada posto
Em agosto de 1986, um decreto-lei, o n.º 243/86, deu a Portugal um regulamento de higiene e segurança para o comércio, os serviços e os locais onde se trabalha em escritório. O artigo 11.º pedia que os locais de trabalho oferecessem boas condições de temperatura e humidade, «de modo a proporcionar bem-estar e defender a saúde dos trabalhadores», e fixava um intervalo: a temperatura devia, «na medida do possível, oscilar entre 18° C e 22° C, salvo em determinadas condições climatéricas, em que poderá atingir os 25° C», com a humidade entre 50% e 70%.
As linhas mais interessantes para quem distribui secretárias vinham logo a seguir. O mesmo artigo dizia que os trabalhadores não deviam ser obrigados a trabalhar «na vizinhança imediata» de instalações com radiações térmicas elevadas ou arrefecimento intenso sem medidas de proteção, e que radiadores, convectores e tubagens de aquecimento deviam ser instalados de modo a que os trabalhadores não fossem incomodados «pela irradiação do calor ou circulação de ar quente». O artigo 10.º já pedia que os meios de renovação natural do ar funcionassem «sem provocar correntes incómodas ou prejudiciais aos trabalhadores» e que a renovação forçada, onde fosse precisa, não provocasse «correntes ou arrefecimentos bruscos prejudiciais». E, entre os dispositivos de correção do ambiente, o regulamento recomendava os sistemas de ar condicionado «locais ou gerais».
Há nestas páginas duas escalas: um intervalo para a sala inteira e, ao lado, regras para quem trabalha perto de uma fonte de calor ou de uma corrente de ar. A norma internacional ISO 7730, que Olesen inclui entre as normas construídas sobre os mesmos estudos que citou, dá nome à segunda escala. Além do voto médio de conforto do corpo inteiro, reconhece quatro causas de desconforto local: as correntes de ar, a diferença de temperatura entre a cabeça e os tornozelos, o pavimento demasiado quente ou demasiado frio e a assimetria da temperatura radiante, isto é, o desequilíbrio entre o calor que o corpo troca com as superfícies de um lado e do outro.
Uma sala pode estar dentro do intervalo de 1986 e uma cadeira dessa sala não o sentir.
Onde a média da sala deixa de valer
Junto à vidraça. No inverno, o lado do corpo virado para o vidro troca calor com uma superfície fria: é o que a ISO 7730 chama assimetria radiante.
Por baixo da saída de ar. O artigo 10.º do regulamento de 1986 pedia que a ventilação forçada não provocasse correntes nem arrefecimentos bruscos prejudiciais, e a ISO 7730 conta as correntes de ar entre as causas de desconforto local.
Ao lado do radiador. O artigo 11.º pedia radiadores e convectores instalados de modo a que os trabalhadores não fossem incomodados pelo calor irradiado ou pelo ar quente.
Ao nível dos pés. O pavimento frio ou quente e a diferença entre a cabeça e os tornozelos são duas das quatro causas da ISO 7730,.
Numa encomenda de secretárias operativas, eu pediria que a planta chegasse com as vidraças e as saídas de ar desenhadas, para que o lugar de cada posto se escolha junto com o posto. Em cada um destes sítios, quem está sentado pode ficar longe da média da sala, e é esse desvio que, segundo Karjalainen, incomoda mais quem lhe é mais sensível.
Volto a Karjalainen: as mulheres precisam, em média, de mais controlo individual sobre a temperatura. Num open space e postos de trabalho, isso pode traduzir-se em lugares que se trocam: postos mais resguardados, longe do vidro e das saídas de ar, que quem sente frio possa ocupar quando o inverno aperta.
Há ainda um motivo para levar isto a sério que vai além do conforto, com limites que convém dizer. Num estudo publicado em 2019, Tom Chang e Agne Kajackaite puseram 543 estudantes a trabalhar em Berlim, em sessões que duravam em média uma hora, numa sala cuja temperatura variou entre 16,19 e 32,57 °C de sessão para sessão. Com mais calor, as mulheres resolveram melhor os exercícios de matemática e os verbais: em matemática, cada grau a mais estava associado a mais 1,76% de respostas certas, em grande parte porque entregavam mais respostas sem que a taxa de erro subisse, o que os autores leem, em parte, como maior empenho. Nos homens o efeito ia no sentido contrário, pequeno e sem significado estatístico, e no teste de reflexão cognitiva a temperatura não teve efeito. É a temperatura de uma sala de laboratório, não a posição de uma secretária num escritório. Dentro desses limites, ali a temperatura influiu nos resultados de matemática e das tarefas verbais.
Quando cada um pode mudar de lugar, o número do termóstato deixa de ter de agradar a todos ao mesmo tempo. Nenhum dos estudos citados o mede: é uma leitura minha.
Em janeiro, alguém vai sentar-se no posto mais perto da vidraça. Que esteja ali porque alguém olhou para esse vidro antes de encomendar a secretária, e que tenha um lugar mais resguardado à espera quando o vidro arrefecer.
Respostas rápidas
Porque é que as mulheres sentem mais frio no escritório?
Na maior parte dos estudos, homens e mulheres não mostram diferenças significativas na temperatura neutra, mas as mulheres são mais sensíveis a um desvio da temperatura ótima, sobretudo quando o ar arrefece, e declaram-se insatisfeitas com o clima com uma probabilidade 1,74 vezes a dos homens (Karjalainen, Indoor Air, 2012). Kingma e van Marken Lichtenbelt (Nature Climate Change, 2015) acrescentam que os valores de referência do metabolismo, baseados num homem médio, podem sobrestimar o das mulheres até 35%.
Que temperatura pedia a lei portuguesa para um escritório?
O Regulamento aprovado pelo Decreto-Lei n.º 243/86 fixou no artigo 11.º que a temperatura dos locais de trabalho devia, na medida do possível, oscilar entre 18 °C e 22 °C, podendo atingir os 25 °C em determinadas condições climatéricas, com humidade entre 50% e 70%. O mesmo artigo tratava da vizinhança de fontes de calor ou de arrefecimento intenso e da instalação de radiadores e convectores.
As normas de conforto térmico foram feitas para os homens?
Segundo Bjarne Olesen (REHVA Journal, 2015), normas como a ISO 7730 assentam em estudos com homens e mulheres em número igual, que, com a mesma roupa e a mesma atividade, preferiram temperaturas quase iguais: 25,4 °C e 25,8 °C. Kingma e van Marken Lichtenbelt notam, porém, que os valores de referência do metabolismo usados no modelo se baseiam num homem médio.
Onde não se deve pôr uma secretária para evitar o frio?
Antes de distribuir os postos, convém identificar na planta as quatro causas de desconforto local da ISO 7730: correntes de ar, diferença de temperatura entre a cabeça e os tornozelos, pavimento frio ou quente e assimetria radiante, como a de uma vidraça fria. O regulamento de 1986 pedia também radiadores instalados de modo a não incomodar quem trabalha e ventilação sem correntes prejudiciais.